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Crítica | Um Crime para Dois diverte graças à dupla protagonista

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Filmes de gênero tendem a ser taxados de clichês com mais frequência. Isso porque existem, justamente, convenções que os integram junto aos seus iguais. Comédias românticas sofrem com esse jogo de regras e, raramente, surge alguma que tem força para perpetuar. Por outro lado, Michael Showalter – diretor de Um Crime para Dois (disponível na Netflix) – é o responsável por alguns dos melhores exemplares saídos dos EUA no século XXI. O Encalhado (de 2005) – que emula uma pegada John Hughes –, Doris, Redescobrindo o Amor (de 2015) e Doentes de Amor (de 2017) são filmes que trabalham os clichês com muita propriedade e de maneira totalmente orgânica. Eles estão presentes, claro, mas quase tudo tem um certo frescor – algo que é excepcional no filme de 2017 que, pessoalmente, eu colocaria entre as melhores comédias românticas já realizadas.

No entanto, esse mesmo gênero tende a sofrer por ser um dos que mais necessitam de identificação. Se alguma sensação, sentimento, situação, desejo, dor ou o que quer que seja de qualquer protagonista encontra um espelho no espectador, a chance de este permanecer ligado ao filme e de, enfim, gostar do que assistiu é enorme. O problema é que o contrário também acontece: se o filme não conseguiu causar alguma fagulha de identificação, o fracasso – ao menos individual – pode ser inevitável.

Ao mesmo tempo em que é um dos gêneros mais desprezados por um sistema que vem desde Aristóteles (há mais de 2.300 anos), do Teatro Grego, a comédia é um dos que mais traduzem a essência subjetiva do cinema (e até das artes gerais): o que é bom para mim – ou o que me faz rir –, pode não ser engraçado para você; o que prendeu a minha atenção pode ser justamente o que afastou você do filme. Junta-se a veia romântica e tudo é exponenciado, até porque romance é, de fato, algo particular em nossa cultura.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

"Somente"

Dito tudo isso, Um Crime para Dois é um filme que, diferente dos outros três trabalhos de Showalter, precisa de uma entrega maior do público e, de repente, de uma suspensão de descrença cavalar. Se, por exemplo, Doentes de Amor foi o ápice da ligação de Showalter com a realidade – talvez por se tratar de uma história real –, esse em questão é o oposto: precisa demais da suspensão de julgamentos sobre o que não poderia acontecer na vida real.

Nessa construção, o diretor aposta quase que cegamente nas atuações de Issa Rae (a Leilani) e Kumail Nanjiani (o Jibran) para transformar toda a irrealidade em uma jogada sarcástica, com uma primeira camada despretensiosa e subtextos que procuram denunciar o racismo estrutural americano e a xenofobia tão vigente. Se essa denúncia só fica totalmente exposta – desenhada – quando Leilani e Jibran acham que uma viatura descobriu quem são e acabam por se sentir aliviados porque o policial é “somente” um racista comum (“Graças a Deus”, diz ela), a verdade é que toda a aventura irreal pode ser lida como uma grande e até dura explanação sobre esses pontos. Talvez a dupla não precisasse fugir após o primeiro assassinato cometido pela personagem de Paul Sparks. Nesse ponto, o desespero de saber que sua palavra pode valer menos ou mais – de acordo com sua cor ou sua origem – é gritante e, claro, transformado em comédia.

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"Graças a Deus." (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

"Por acaso ela é afroamericana e ele também é uma pessoa de cor, mas não acho que sejam assassinos porque são minoria.", diz ao telefone a personagem de Catherine Cohen, denunciando Leilani e Jibran.

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Denúncia bem transformada em comédia. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Os donos do filme

Pois comédias também podem deixar reflexões – como fazem as melhores – por mais que busquem o riso. Debi & Lóide: Dois Idiotas em Apuros (de Peter Farrelly e Bobby Farrelly, 1994) é um dos filmes mais consistentes nesse sentido – e, geralmente, é bem menosprezado por ser uma... comédia (e besteirol ainda). Um Crime para Dois não é tão escrachado, talvez por entender que os comentários políticos e sociais – pelo menos em sua época – precisam estar claros, sem tantas entrelinhas e sem jeito de subtexto. Mas, ainda assim, a força parece depositada sobre os ombros de Rae e Nanjiani, que se entregam ao máximo para conseguir dar validade ao roteiro de Brendan Gall e Aaron Abrams (de The Go-Getters), que é burocrático e – voltemos ao princípio – cheio de clichês.

Por mais que esses clichês, de algum modo, aconteçam de maneira orgânica durante o filme, a utilização deles pode sugerir displicência tanto por parte dos roteiristas, que parecem ter somente escolhido um caminho mais fácil, quanto pela direção de Showalter, que se distanciou demais da emulação de Hughes que foi um dia e da naturalidade do seu filme anterior e acabou por destituir seu trabalho de personalidade. Por essa perspectiva, Um Crime para Dois é muito mais da dupla protagonista do que do próprio diretor, o que pode ser bem problemático quando se pensa no filme como uma unidade. Aqui, a coesão entre estética e estilo é totalmente refém do talento de uma atriz e de um ator que são, possivelmente, muito maiores que o resultado.

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Rae e Nanjiani: maiores que o filme. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

No final das contas, pode existir sim diversão em Um Crime para Dois. Ele tem potencial para valer o tempo, a pipoca em casa e, inclusive, ceder algumas boas risadas. Mas, dificilmente, sobreviverá. E não me refiro a uma sobrevivência histórica: é muito provável que não exista força suficiente para que os breves 86 minutos de duração permaneçam na nossa memória por um prazo suficiente para que se torne uma referência pessoal do gênero.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech