OMS desiste de testar cloroquina em tratamento de Covid-19

Entidade retira droga de lista de estudos, depois de suspender hidroxicloroquina para avaliar segurança

A OMS (Organização Mundial da Saúde) retirou a cloroquina da lista de drogas que seriam testadas para tratamento da Covid-19 (doença provocada pelo novo coronavírus) no programa internacional Solidarity.

Na segunda (25), a entidade havia anunciado a suspensão dos testes com hidroxicloroquina, para avaliar a segurança do medicamento. Estudo publicado na revista médica inglesa Lancet com dados de 96 mil pacientes publicado na sexta-feira (22) indicava que as duas drogas, hidroxicloroquina e cloroquina, estavam relacionadas a maior mortalidade.

O uso das duas drogas é defendido pelo presidente Jair Bolsonaro, e na última quarta (20) o Ministério da Saúde alterou o protocolo para ampliar seu uso também por pacientes com sintomas leves de Covid-19. Até então, a permissão era para pacientes graves e críticos e com monitoramento em hospitais.

Já os governos da França, da Bélgica e da Itália deixaram de usar a hidroxicloroquina no tratamento de pacientes de Covid-19 depois que a OMS anunciou a suspensão de seus testes com a droga para avaliar a segurança de seu uso em casos de infecção por coronavírus.

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Diretores da OMS em pronunciamento com atualizações sobre o novo coronavírus em Genebra, Suíça - 17.abr.2020/AFP

Na página do Solidarity na internet, que até sexta-feira passada relacionava a cloroquina como droga a ser testada, a OMS incluiu um asterisco com este aviso: “De acordo com o protocolo do estudo inicial, a cloroquina e a hidroxicloroquina foram selecionadas como possíveis drogas a serem testadas no Solidariedade. No entanto, o estudo só foi realizado com a hidroxicloroquina; portanto, a cloroquina foi removida desta página como uma opção de tratamento listada em estudo”.

Em entrevista na última quarta (20), a entidade havia citado os dois medicamentos como objeto de estudos para o tratamento da Covid-19 no Solidarity —programa internacional coordenado pela organização em 245 hospitais de 18 nações, com cerca de 3.000 pacientes e 885 médicos envolvidos. A OMS disse à Folha que não pode divulgar os nomes dos países participantes.

A organização afirmou que a cloroquina não chegou a ser testada desde que os experimentos começaram, em março. Questionada sobre a possibilidade de reintroduzir a cloroquina no programa após a checagem que está sendo feita na hidroxicloroquina, a entidade não havia respondido até as 11h30 desta quarta.

A revisão dos dados do Solidarity está sendo feita por um comitê independente, o DSMC (Conselho de Monitoramento de Dados e Segurança) por causa da forma como o experimento foi desenhado: um estudo randomizado duplo-cego.

Randomizado quer dizer que os pacientes são escolhidos de forma aleatória, o que evita que os resultados sejam afetados por viés na seleção. Os participantes são divididos em dois grupos ---um recebe o medicamento a ser testado e o outro recebe um placebo (produto que imita o remédio, mas é inócuo).

As características dos participantes são controladas, para isolar depois o efeito da droga de outras eventuais causas.

Duplo-cego significa que nem o paciente nem os pesquisadores sabem quem está recebendo o remédio e quem está tomando o placebo, precaução tomada para garantir que não haja interferências que prejudiquem as conclusões do estudo.

O DSMC está revisando os dados do estudo com a hidroxicloroquina do Solidarity e de outras pesquisas em andamento e já publicadas, e deve divulgar uma conclusão em meados de junho.

Os pacientes que haviam sido escolhidos para o estudo continuarão recebendo a hidroxicloroquina até o final do tratamento.

Segundo a OMS, embora a hidroxicloroquina e a cloroquina já sejam produtos licenciados para o tratamento de doenças autoimunes e malária, até o momento eles não demonstraram ser eficazes para pacientes com coronavírus, e por isso deveriam ser usados apenas em testes, sob supervisão.

A organização afirma que “alertou os médicos contra a recomendação ou administração de tratamentos não comprovados aos pacientes com Covid-19 e alertou as pessoas contra a automedicação com eles”.

“O potencial existe, mas são necessários muito mais estudos para determinar se os medicamentos antivirais existentes podem ser eficazes”, diz a OMS.​