Testes à imunidade da Covid-19 são rápidos e baratos, mas muitas vezes estão errados

Os testes serológicos identificam se o novo coronavírus já esteve ou não no organismo, mas não dizem se a pessoa continua ou não infetada - podendo errar no resultado de até 50% dos infetados. Governo diz que estes são "tidos em conta" para avaliar imunidade dos portugueses à Covid-19.

by

Os testes serológicos detetam a presença de respostas imunitárias do nosso corpo a um determinado vírus. No caso da Covid-19, eles identificam se o novo coronavírus já esteve ou não no nosso organismo, mas não referem se a pessoa continua ou não infetada, nem a carga viral a que está exposta. Os testes são baratos, os resultados conhecem-se em minutos, mas a sua sensibilidade pode levar a que pessoas infetadas sejam informadas de que nunca tiveram o vírus.

Nestes testes é investigada a presença de dois tipos de substâncias: antigénios e anticorpos. Antigénios são os fragmentos do vírus que o nosso corpo reconhece como estranhos ao organismo e, por isso, origina a produção de anticorpos – a resposta do sistema imunitário ao intruso. Assim, os testes serológicos passam por detetar a resposta do corpo humano ao vírus, e não o vírus em si. E, porque a resposta apenas surge algum tempo após a infeção, os testes apenas comunicam se a pessoa esteve em contacto com o vírus, e não se continua infetada.

Pode um teste serológico rápido servir para detetar infetados da Covid-19? A resposta mais provável é um não. Embora alguns investigadores estejam otimistas quanto à eficácia destes testes para a deteção de casos do novo coronavírus, a verdade é que estes são muito menos específicos que testes moleculares usados para aferir se uma pessoa está, efetivamente, infetada.

"É uma espécie de laboratório numa zaragatoa", explica à Science Stephen Tang, presidente e CEO da Orasure, uma empresa de testes de diagnóstico que desenvolveu o seu próprio teste rápido para o vírus da Covid-19, o Sars-CoV-2. Algumas utilizavam fluidos corporais, outras amostras de sangue. É depois adicionada uma solução que serve de tampão – que minimiza diferenças bruscas de pH. Através da capilaridade, o líquido vai mover-se para anticorpos específicos para a proteína viral do coronavírus.

Se estes anticorpos chegarem ao local marcado, a cor do teste muda e este é dado como positivo. Mas o que leva a cor a mudar pode mudar de teste para teste. Em alguns, os anticorpos só se mostram após reações químicas – que podem não acontecer, mesmo que os anticorpos (e a doença) esteja lá. "É necessário encontrar dois anticorpos que não interfiram entre si", indica à revista científica Lee Gehrke, virologista do MIT e criador de um teste serológico para a Covid-19.

Testes serológicos podem errar no resultado de até 50% dos infetados

O grande problema deste tipo de testes é que, muitas vezes, não conseguem detetar os infetados. Nos testes moleculares, o método mais usado é a da cadeia de reação polimerase (PCR), que amplifica as sequências de ADN e ARN, tornando mais fácil identificar o vírus a partir de apenas algumas cópias. Por isso, a sensibilidade do teste (taxa de verdadeiros positivos) é de cerca de 98%, enquanto a seletividade (capacidade de recolher todos os resultados) é quase perfeita.

 Isto faz que, através dos testes normais à Covid-19, quase todas as infeções sejam detetadas e só em casos raros é que alguém não infetado dá positivo num teste para o novo coronavírus

Por não ter ser usado nenhum método que torne mais clara a presença de anticorpos e antigénios, os testes serológicos são muito mais incertos. A maioria dos testes de antigénios têm uma sensibilidade entre os 50% e 90% - o que quer dizer que até metade dos infetados pode não saber que está infetado se fizer um destes testes rápidos. Ou, por outras palavras, um em cada dois infetados pode estar a acreditar, erradamente, que não tem o vírus.

De acordo com o El País, as autoridades de saúde espanholas devolveram no passado mês 340 mil  testes serológicos a uma empresa chinesa após descobrir que os testes apenas identificavam pessoas infetadas pela Covid-19 em 30% dos casos.

Outro alerta, vindo da Associação de Especialistas e Conselheiros de Hospitais do Reino Unido (HCSA), indica que dois a três em cada 10 testes negativos ao coronavírus podem estar errados, com sindicatos médicos a avisarem que estes exames podiam levar à propagação de vírus por parte de pessoas que pensam que não o têm.

A Direção-Geral de Saúde de Inglaterra (PHE) nunca indicou qual seria a eficácia deste tipo de testes a antigénios, refere o Daily Mail, enquanto a HCSA refere que profissionais de saúde estão a ser declarados como livres da Covid-19 quando podem voltar ao trabalho e transmitir a doença a pacientes de grupos de risco.

Mas existem vantagens na utilização dos testes serológicos. São uma maneira fácil, rápida e barata, que não requere a presença de especialistas, e por isso pode ser usada no dia-a-dia, mesmo que não possa ser levada completamente a sério. No entanto, se for positivo, as probabilidades de se tratar de um falso positivo são de cerca de 10% e o teste pode ser facilmente repetido.

E os seus resultados rápidos significam que, perante um teste positivo, essa pessoa pode ser rapidamente isolada – visto não se saber se está ainda infetada ou não – sob risco de poder infetar outros.

O que diz Portugal sobre os testes serológicos?

Em Portugal, os testes rápidos, semelhantes aos da gravidez ou da diabetes, não estão à venda em farmácias mas estão a ser utilizados por algumas instituições em vários hospitais desde o mês de abril. Na passada quinta-feira, o Governo anunciou que testes como estes estavam a ser "tidos em conta" para uma "avaliação da imunização da população" portuguesa face à covid-19.

Na sua página, a Direção-Geral de Saúde (DGS) indica que nestes exames é "muito importante a avaliação e quantificação da presença de anticorpos para estudos de imunidade", exigindo duas amostras de soro – uma primeira da fase aguda da doença e uma segunda do período de convalescença, mas avisa que testes de deteção de anticorpos devem ser utilizados "com precaução".

"Os testes indiretos de deteção qualitativa de anticorpos SARS-CoV-2 devem ser utilizados com precaução, uma vez que se desconhece ainda qual o tipo e a duração dos anticorpos que são desenvolvidos no decurso da infeção e não é possível inferir sobre a sua qualidade neutralizante e/ou capacidade de induzir imunidade", refere a mais recente atualização de orientações para diagnósticos laboratoriais.

Já no final de abril, Graça Freitas tinha alertado que testes serológicos não seriam a "resposta a todos os nossos anseios". "É mais uma pista da ciência para perceber o grau de imunidade da população. São precisos resultados mais sólidos [sobre os testes]. Temos de agir em função do princípio da precaução", afirmou a responsável da DGS, indicando que os portugueses teriam de "continuar a ter as mesmas medidas de proteção".

Na altura, a diretora-geral de saúde assegurou que Portugal iria fazer estes testes e que os procedimentos seriam adaptados conforme a evolução científica, mas alertou para um estudo que referia que a presença de anticorpos em 14% da população infetada pelo novo coronavírus podia "não ser suficiente" para dar proteção duradoura perante uma nova vaga da Covid-19.