Vítima de chacina em Vila Canária morreu porque não teve reação para correr

Quatro pessoas foram assassinadas durante festa de aniversário na noite deste domingo, inclusive o aniversariante

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(Arisson Marinho/CORREIO)

Em frente à uma igreja, ainda havia taças quebradas e copos plásticos misturados ao sangue no asfalto – eram resquícios de uma noite que dificilmente será esquecida por moradores de Vila Canária. Quatro homens foram vítimas de uma chacina no domingo à noite (24), entre eles Carlos de Jesus dos Santos, 39 anos. Moradores relataram que ele foi baleado porque não teve reação para correr - os criminosos ordenaram que todos deixassem o local, com a exceção de dois irmãos e um outro homem, suspostamente alvos do grupo.

Carlos de Jesus dos Santos, 39 anos, trabalhava num açougue em Pernambués e namorava a mãe dos irmãos Érico e Erick Santos de Jesus, 27 e 35 anos, respectivamente, também vítimas da chacina. “Os irmãos e o amigo já estavam deitados no chão a pedido dos bandidos, que antes de atirar mandaram as outras pessoas correrem. Mas Carlos ficou parado. Ele era do interior e não estava acostumado com essas coisas. Os demais foram baleados deitados e Carlos estava em pé quando levou um tiro na cabeça de um dos criminosos na hora da fuga”, contou ao CORREIO uma parente dos irmãos assassinados, na manhã desta segunda-feira (25), no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR).  

Em nota, a Polícia Civil informou que a Delegacia de Homicídios Múltiplos (DHM) investiga as mortes dos irmãos Érico e Erick, e de Carlos e Valfredo Anunciação de Oliveira, 39, ocorridas na noite de domingo, na rua Rogério Ariane, em Vila Canária, onde comemoravam o aniversário de Érico. 

A autoria do crime é atribuída a quatro homens, ainda não identificados. A motivação ainda está sendo apurada. O CORREIO perguntou se as vítimas têm passagem na polícia, mas ainda não obteve resposta.

Na manhã desta segunda-feira (25), o CORREIO esteve  IMLNR e conversou com parentes dos irmãos assassinados. Por uma questão de segurança, eles preferiram não se identificar. Contaram que Érico trabalhava comprando e vendendo roupas por encomendas e, nas horas vagas, era ajudante de pedreiro – acompanhava o pai, que atualmente vive  outro relacionamento. 

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Os irmãos Érick (fundo) e Érico foram vitimas de chacina que matou quadro pessoas
(Foto: Divulgação)

Aniversário
Para o aniversário de Érico não cair no esquecimento, a mãe dele resolveu fazer uma comemoração e contou com a ajuda de Érick, que trabalhava como motoboy, para reunir poucos parentes e amigos.  “A mãe deles entrou com o feijão, o irmão com o bolo e amigos e parentes trouxeram bebidas. Era algo para não passar em branco”, contou a parente. Além da mãe e filhos, estavam o namorado dela, Carlos, um amigo dos irmãos, Valfredo, conhecido no bairro como Gazito, e outra duas mulheres – uma era uma tia dos irmãos e a outra a namorada de Érico. 

Quatro homens
A festa transcorreu na maior tranquilidade durante toda a tarde – as pessoas estavam na porta da casa da mãe dos irmãos. Quando a noite começou a cair, Érico e a namorada resolveram entrar e ficaram em um dos quartos. No entanto, por volta das 19h, o clima de descontração se esvaiu com a chegada de um carro – testemunhas disseram que foi um GM Meriva branco de vidros escuros – e dele desceram três homens, dois deles encapuzados e um usando uma máscara por conta da pandemia de coronavírus – o quarto criminoso permaneceu na direção do carro. 

Segundo parentes, os homens armados disseram que eram policiais. “Eles falaram: ’ É polícia, é a polícia'. Os dois encapuzados entraram na casa e tiraram Érico do quarto. Eles estavam com uma camisa de manga longa escura e de bermuda”, contou a parente. 

Em seguida, os bandidos colocaram os irmãos e Valfredo deitados de bruços no chão, um próximo ao outro, e começaram a atirar. A mãe dos irmãos ainda implorou, dizendo: “Meus filhos são trabalhadores”, mas eles sequer olharam para ela e iniciaram a execução. “Érico foi o primeiro, depois Érick e em seguida o amigo deles, Valfredo”, detalhou a fonte. Ainda de acordo com o parente, antes dos disparos, os bandidos haviam ordenado que todos fossem embora, menos os irmãos e o amigo deles, mas Carlos, devido ao nervosismo, ficou estático. “Ele não correu. Ficou parado. Aí um dos caras deu um tiro na cabeça dele e foi embora com os demais”, disse. 

A família não sabe o motivo das mortes. “Estamos todos sem acreditar, procuramos respostas. Pelo que sabemos, nenhum dos meninos (irmãos) têm envolvimento com drogas. Pelo contrário. Todos são trabalhadores. Se faziam alguma coisa, a família não tinha conhecimento”, disse a parente.

O CORREIO esteve no local do crime. A casa da mãe dos irmãos mortos estava trancada. Os vizinhos de paredes coladas sequer apareceram em suas janelas para falar com a equipe de reportagem. Uma moradora, que passava num carro, depois de insistência, falou com o CORREIO. “Estava na sala quando ouvi os tiros. Foram sequenciais. ‘Pá, pá, pá, pá’. Na hora, peguei o meu menino e ficamos abaixados na cozinha. Hoje pela manhã, soube o que aconteceu”, contou ela.