Série vai de Portugal ao sertão nordestino para investigar comida no Brasil

Produção recupera obra 'História da Alimentação no Brasil', pioneira ao entender assunto como manifestação cultural

Não é pouca a ambição de “História da Alimentação no Brasil”. A série recém-lançada na Amazon Prime Video recupera uma das obras mais importantes sobre o tema no país, o livro com o mesmo nome escrito por Luís da Câmara Cascudo.

Para abastecer seus 13 episódios, a produção dirigida por Eugenio Puppo (de “Sem Pena”, sobre o sistema judicial e prisional brasileiro) se aproveita do mesmo método usado por Cascudo para constituir sua obra de pouco mais de 900 páginas –perguntar.

Professor de direito na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, autor de cerca de 230 títulos, entre eles o “Dicionário do Folclore Brasileiro”, Cascudo sempre investigou, em suas pesquisas, a alimentação popular.

“Fiz demorados inquéritos pessoais entre mestres de farinha, damas dos antigos engenhos, cozinheiras afamadas, as doceiras de citação, sempre que podia. Minha mãe, minhas tias, senhoras de sertão do oeste, fiéis às normas de outro tempo, suportaram minha curiosidade infatigável”, diz Cascudo, em trecho de “História da Alimentação no Brasil”.

Assistir à série é como receber, décadas depois, respostas a essas indagações. Já que comida é matéria viva, os elementos essenciais à cozinha brasileira, como o milho e a mandioca, são desenhados na produção com ajuda de 73 entrevistas feitas em nove estados brasileiros e 11 cidades em Portugal —uma resposta à ambição documental de Cascudo.

Nessa peregrinação por diversos sotaques e regiões, são interrogadas pessoas diversas, agricultores, feirantes, chefs e também algumas testemunhas raras da culinária brasileira, como a pesquisadora Ana Rita Suassuna, que registra os hábitos do sertão do Nordeste como poucos.

Ao lado dela, em capítulos ágeis e leves, com cerca de 30 minutos, aparecem figuras como o produtor Bené, “professor da farinha” de Bragança, do Pará, dona Carmem Virginia, uma iabassê que versa sobre a cozinha nos rituais do candomblé, e o sociólogo Carlos Alberto Dória, autor de livros importantes como "Formação da Culinária Brasileira - Escritos sobre a Cozinha Inzoneira".

Mas as entrevistas com músicos como o paraibano Chico César, que fala sobre a lembrança viva de ver seu pai preparando farinha, também é um sinal de que o pensamento sobre a comida é acessível a todos que a comem.

Neta de Cascudo, à frente do acervo e do instituto que promove o legado do autor, Daliana Cascudo lembra que, enquanto o avô escrevia a obra (que teve o primeiro volume lançado em 1967 e o segundo, em 1968), não existia a ideia de que a alimentação pudesse ser uma manifestação legítima da cultura de um povo.

“Cascudo escreveu no início dos anos 1960 e, nesse período, o tema da alimentação era pouco investigado no campo das ciências humanas em escala internacional. A reflexão dele foi muito importante e, no Brasil, quase que fundadora. Até essa época, cultura era o que tratava da arte, da ciência e da religião. A dimensão da vida cotidiana e das camadas populares era muito pouco valorizada”, afirma Henrique Carneiro, professor do departamento de história da Universidade de São Paulo.

Carneiro, que também é entrevistado na série dirigida por Puppo, afirma no episódio sobre a comida real portuguesa que “comer junto ou beber junto passa a ser a noção essencial de sociabilidade”. Essa dimensão de convivência suprimida pelo isolamento social durante a pandemia do coronavírus pode ser, a quem tiver oportunidade, um momento de se voltar aos achados de Cascudo —cuja presença na série se dá por meio de imagens e da narração de trechos que escreveu.

Robusto, o trabalho de Puppo continua numa segunda temporada da série, feita com viagens à África e oito estados brasileiros, que tem previsão de lançamento no início de 2022, no Cinebrasil TV —em que a série foi lançada pela primeira vez, há três anos.