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Pandemia pode tirar 484 mil alunos do ensino superior no país, projeta sindicatoFoto: Agência Brasil/arquivo

Pandemia pode tirar 484 mil alunos do ensino superior no país, projeta sindicato

Desde 2015 a rede privada não registra queda no número total de matrículas, mas o setor prevê aumento da evasão e diminuição de 80% no número de ingressantes no segundo semestre

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Jeyzza foi dispensada do estágio. O pai de Vitória perdeu o emprego. Menos de um mês após a redução de renda em casa, as duas tiveram que deixar a faculdade por não conseguir pagar as mensalidades. Situações como as delas devem se tornar mais frequentes, com a estimativa de que 484 mil estudantes podem deixar o ensino superior neste ano.

Projeção feita pelo Semesp (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior), com dados de abril e maio sobre cancelamento e trancamento de matrícula, aponta que o número de estudantes da rede privada no ensino superior deve ter queda de 7,6% neste ano com a pandemia do coronavírus.

As faculdades particulares são responsáveis por 75% das 8,4 milhões de matrículas nessa etapa.

Desde 2015 a rede privada não registra queda no número total de matrículas, mas o setor prevê aumento da evasão e diminuição de 80% no número de ingressantes no segundo semestre.

O aumento da inadimplência também preocupa o setor, em abril o número de estudantes com mensalidades em atraso foi 72,4% maior que no mesmo mês de 2019.

"Fiquei sem estágio, minha mãe teve redução de salário e eu não consegui desconto na mensalidade. Não tinha o que fazer, não tem alternativa. Fico chateada porque significa adiar minha formatura em pelo menos um ano", contou Jeyzza Tito, 24, aluna de Ciências Biológicas na Unip de Santos.

A jovem disse ter tentado negociar redução do valor da mensalidade de cerca de R$ 500, mas não conseguiu nenhum desconto.

"A única opção que me deram foi dividir as parcelas em seis vezes no cartão. Ia empurrar a dívida pra frente e ter cobrança em cima de cobrança a cada mês. Não fez sentido para mim", disse.

Vitória Pires, 21, também pediu desconto depois que seu pai foi demitido do restaurante onde trabalhava. Aluna de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, ela disse que a direção comunicou ter um desconto máximo de 25% do valor da mensalidade de R$ 2.500.

"Não fui contemplada com essa redução e, mesmo que tivesse sido, não seria o suficiente para que continuasse estudando".

No segundo ano do curso, Vitória disse achar que não volta para a faculdade para o qual estudou por dois anos para ser aprovada depois de terminar o ensino médio.

"Estou muito chateada, muito decepcionada por ter chegado nesse ponto. Quando tiver condições de pagar de novo, penso que o melhor seria em outra instituição".

Rodrigo Capelato, diretor do Semesp, disse que a projeção é de aumento de 10% nas taxa de evasão -nos últimos anos, em torno de 3 a cada 10 alunos desistem do curso. Para ele, a saída deve ser maior entre aqueles que tinham entrado na faculdade neste ano.

"Esse estudante teve no máximo duas semanas de aula quando a pandemia começou. Ele não criou vínculo, não vai fazer sacrifícios para continuar pagando".

Para ele, apesar do esforço das instituições para continuar com as aulas a distância, o formato emergencial pode também não agradar os estudantes, o que favorece ainda mais a desistência.

"Os alunos podem estar insatisfeitos, mas não foi uma opção da faculdade adotar esse modelo. Ele é o único possível".

Inadimplência

Capelato disse que a orientação às faculdades é para a concessão de descontos, adoção de linhas de crédito dentro das próprias instituições e até a suspensão de cobrança em alguns casos.
Estudo do sindicato indica que em abril a inadimplência atingiu 26,3% dos estudantes da rede privada –no mesmo mês do ano passado, essa taxa era de 15%.

Essa taxa de inadimplência representa que 1,6 milhão de estudantes estão com mensalidades atrasadas, sendo que 75,8% deles estão matriculados em cursos presenciais.

O setor pediu ao Ministério da Educação que amplie o número de vagas para o Fies (Financiamento Estudantil) e ProUni (Programa Universidade para Todos) neste ano para tentar conter o abandono de parte dos estudantes.

Questionado, o MEC não respondeu se analisa aumentar o número de vagas nesses programas.